Lingüistas estudam uso atual de termos relacionados ao nazismo
Rodrigo Zuleta - portal G1
Berlim, 20 dez (EFE).- Os lingüistas Georg Stötzel e Thorsten Eitz, da Universidade de Düsseldorf, publicaram um estudo sobre o uso de termos relacionados ao nazismo após 1945 que revela as contradições ainda presentes na consciência dos alemães.
O trabalho é apresentado como um Dicionário para a superação do passado e analisa centenas de palavras cujo uso é problemático desde 1945.
“Do ponto de vista da lingüística, podemos mostrar que os alemães não conseguem deixar o tema para trás. Continuam sem encontrar termos de consenso para muitas coisas”, o que é claramente percebido em palavras que se referem ao início ou ao fim da ditadura, de acordo com Stötzel e Eitz.
A chegada de Adolf Hitler ao poder costuma ser designada como “Machtübernahme” - palavra que pode ser traduzida como tomada do poder, mas que soa como um ato burocrático - ou como “Machtergreifung”, de mesmo significado, mas que sugere uma interrupção mais brusca do curso político.
A partir da análise de uma série de textos, os pesquisadores notaram que ao longo dos anos os alemães também não conseguiram chegar a um consenso sobre a palavra que deveria ser adotada para expressar o fim da guerra.
“Kapitulation” (capitulação) talvez seja um termo menos usado se for comparado ao ainda freqüente “Zusammenbruch” (colapso) ou ao mais recente “Befreiung” (libertação), com o qual muitos alemães, principalmente os que presenciaram o fim da guerra nas regiões às quais o Exército russo chegou, não param de se reconciliar.
Os autores afirmam que o uso da palavra “Befreiung” para se referir ao fim da guerra só passou a ser oficial em 1985, depois de um discurso controvertido do então presidente Richard von Weizsäcker.
Outras palavras acabaram sendo proibidas para designar coisas fora do universo nacional-socialista e algumas costumam ser usadas como ferramentas de combate ideológico. Os alemães recorrem a elas para estabelecerem comparações que normalmente produzem indignação generalizada.
Por exemplo, a Igreja Católica chegou a declarar que as clínicas de aborto são novos Auschwitz e as pílulas anticoncepcionais são “Zyklon B”, o gás usado nas câmaras dos campos de extermínio.
Os ecologistas também recorreram a comparações problemáticas e afirmaram que a ameaça nuclear era o risco de um novo Holocausto.
Além disso, a sensibilidade ao uso de alguns termos cresceu através dos anos. Na década de 50, quando o atual Exército foi criado, os alemães pensaram em lhe dar o mesmo nome do Exército que lutou na Segunda Guerra Mundial, o “Wehrmacht”.
A idéia foi rejeitada e optou-se por “Bundeswehr” (Exército Federal), que identifica melhor as novas forças armadas com o novo estado democrático.
No entanto, os autores consideram significativo que o termo “Wehrmacht” tenha sido considerado, já que isto mostra que nos anos 50 as forças armadas ainda não eram vistas como cúmplices dos crimes do nacional-socialismo.
Há outra série de palavras como “entartet” (degenerado) - empregada pelo nazismo para designar a arte que não seguia a linha oficial - ou “auslese” (seleção) - utilizada para qualificar o exame dos prisioneiros quando chegavam aos campos de concentração - que hoje ainda são problemáticas devido ao seu uso pelos nazistas. EFE
